O desenvolvimento, em boa parte de sua literatura específica e na visão pragmática de alguns agentes mais diretamente interessados, é tratado como um problema econômico. No debate contemporâneo, inclusive, é apresentado como pertinente ao campo da economia de forma prioritária, para somente após este “enquadramento” ser abordado sob aspectos distintos. Assim, o debate apresenta-se do ponto de vista das planilhas e gráficos de uma ciência econômica cada vez mais esquecida de que, em essência, situa-se entre as ciências humanas e não as exatas.
O cálculo que se faz do aumento ou declínio do Produto Interno Bruto (PIB) do país, frequentemente é observado como o fator mais importante do desenvolvimento, fator vinculado à riqueza, em termos econômicos, produzida ao longo de um determinado período. Outros fatores levados em conta pelos especialistas em desenvolvimento são o aumento da renda média das famílias ou do poder aquisitivo em termos de bens e serviços, assim como a mobilidade entre as classes sociais, também do ponto de vista do acesso a bens.
No noticiário cotidiano é comum se ressaltar que avançamos porque os índices de emprego e ocupação são hoje superiores aos índices de períodos anteriores, que a população está consumindo mais e que a produtividade de determinados setores do mercado elevam o crescimento do conjunto da economia. Também nos momentos de “crise” esta lógica dos números é invocada para explicar tudo de bom ou ruim que acontece. Porém, nesta enxurrada de números, é exceção, e não regra, a preocupação dos “desenvolvimentistas” com os elementos qualitativos deste processo de desenvolvimento.
Nossa preocupação é a de identificar o desenvolvimento enquanto fenômeno que excede as análises exclusivamente econômicas, buscando interpretá-lo a partir de fatores de ordem social, política e cultural, pertinentes aos atores envolvidos direta e indiretamente em seu processo. Entendemos o desenvolvimento como algo fundamentalmente dinâmico, daí tratá-lo enquanto processo. E inerente a essa dinâmica, aspectos como bem estar social, assegurados pela garantia de direitos fundamentais, liberdade de expressão, participação democrática, diversidade cultural, encontram-se entre os elementos que necessariamente devem ser levados em conta nas análises acerca do desenvolvimento.
Reconhecemos, contudo, que muito se avançou nas duas últimas décadas com a adoção de índices que objetivam interpretar o desenvolvimento em dimensões mais abrangentes. A adoção pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento de um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), para uma melhor avaliação desta problemática entre as diferentes nações, ainda na década de 1990, evidencia este avanço.1
O economista indiano Amartya Sen - premio Nobel em 1998 e um dos idealizadores do IDH - em seus principais trabalhos, indica a partir de fatores que vão muito além dos econômicos, que problemas advindos da ausência de desenvolvimento podem ser observados tanto em países ricos como em países pobres.2 O que pretende Sen é nos chamar a atenção para os aspectos subjetivos inerentes ao desenvolvimento. Em sua interpretação, os principais entre estes aspectos são a questão da liberdade e a condição de agente dos atores individuais acerca da relação em que lidam com suas privações de ordem social, política e também econômica.
Assim como Sen, outros intérpretes procuram trazer para o debate sobre o desenvolvimento as novas alternativas possíveis para uma melhor democratização e participação da sociedade civil nos processos de decisão. Esta também é nossa posição, procurando identificar nestes elementos um melhor entendimento sobre as condições que caracterizam nossa realidade local.
Nosso esforço, portanto, é primeiramente identificar as contradições entre o produto e a riqueza material geradas pelo crescimento econômico com a possibilidade de que a sociedade venha a ser a principal beneficiada por esse processo. E após essa interpretação, quando manifestamos nossa preocupação com os “elementos qualitativos”, entendemos que o surgimento e adoção de novas alternativas de gestão social e governança local são imprescindíveis para abrir caminho a esta construção.
Notas
1. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é um indexador calculado pela ONU para aferir o grau de desenvolvimento social de um país, a partir da média de três indicadores: esperança de vida ao nascer; taxa de alfabetização de adultos combinada com taxas de matrícula no ensino fundamental, de 2° e 3° graus; e renda per capita.
2. SEN, Amartya. Desenvolvimento como Liberdade. São Paulo, Companhia das Letras, 2002.
Referências Bibliográficas
FURTADO, Celso. O longo amanhecer: reflexões sobre a formação do Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.
DOWBOR, Ladislau. Democracia Econômica: Alternativas de Gestão Social. Petrópolis, Editora Vozes, 2008.
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia da Letras, 2000.
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